o caminho…

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Partida

Quando viramos as costas e nos aguarda um avião, não há nada a fazer… Sabemos o que nos aguarda sem saber o que nos espera. As hospedeiras de bordo disseram qualquer coisa quando entrei no avião mas soou-me a filme mudo. O voo às 8h30 da manhã implica o costume dos check in matinais mas este não é para ir de férias. Experiência estranha voar para o trabalho. As piadas no aeroporto fizeram-me rir mas não deixaram de soar a despedida. Lembraram-me as piadas que me contavam antes de ir ao dentista… Mais um “ri agora que assim não pensas no que vai doer…”. Sofrer de véspera é sofrer duas vezes.

Acordar às 5 da manha depois de 3 horas de sono, malas feitas, correria… é impossivel nao sentir os ossos partidos… Ainda assim não dá para dormir no avião. Partiu às 8h45 e, como de costume, não masquei pastilha elástica. Gosto de sentir os ouvidos a soluçar.

Definicao (quase) perfeita

Lembro-me que alguém no avião disse em Português “Já se vê Frankfurt…”. Ficou-me marcado porque foi a ultima frase que ouvi em Português falado ao vivo, tipo mergulhador de apneia em preparação para submergir. O voo foi curto, 3 horas… A distância acusa quanto baste mas 3 horas são poucas. Senti o voo como um suspirar fundo para preparar o que aí vem, mas 3 horas não são suficientes. Acho que 12 também não seriam e nesse caso estaria ainda mais longe. Distância produto do tempo… De qualquer maneira sempre deu para concentrar e alinhar ideias sobre o que fazer depois da aterragem. Tipo checklist. Aprecio o método e a ciência aplicada a quase tudo… Falsa sensação de que tudo tem explicação… Falácia natural que dá jeito adoptar por conforto, inércia e medo de voos mais altos. Pena é dissolver-se face a outras problemáticas mais complicadas por definição ou seria perfeita…

O desembarque

O Desembarque foi simples e descongestionado e já se ouvia falar alemão na manga de desembarque. Foi lá que deu para sentir a diferença de temperatura pela primeira vez porque o frio entrava junto ao avião, pelas borrachas de acoplagem. “É frio seco… Aguenta-se bem” lembro-me de ter pensado para mim 3 vezes na tentativa de me convencer. Quase resultava…

O aeroporto é gigante. Parece que nunca mais acaba. Andei 15 minutos a pé só para chegar à mala e isto com ajuda dos tapetes rolantes… 5 minutos para receber a mala com os 25 Kg de roupa e outras tantas coisas que gritam importância apesar da aparente futilidade. Nesta fase a mochila com o portátil e a câmara estao a dar cabo de mim e do que resta das minhas costas, 8 quilos de tecnologia para me manter são e em contacto com o que interessa. Meti muita coisa no casaco (inclusive a bateria do portátil) pelo que o dito cujo está a pesar uns 5 kgs… Tudo ajuda a aliviar peso da mala principal. Vá lá que ainda não se pesam casacos nos Check in, ou tinha tido problemas na Portela… Útil espírito Português…

Onde está o comboio

10 minutos a andar com 37 quilos até chegar à gare dos comboios. Uma da tarde e a fome aperta. A fila para comprar o bilhete de comboio é curta, obviamente que teve de ser na bilheteira pois as máquinas automáticas eram incompreensíveis. Todos os diálogos à volta me soam desconexos. É a primeira vez que estou num país em que não compreendo absolutamente nada da língua. Queria eu ir a Tóquio para conhecer o efeito “Lost in Translation”… Bastou 3 horas…

O funcionário vende-me o bilhete e diz-me que é só descer as escadas e o comboio é ali mesmo… Explicou-se mal… Chego ao sitio e aqueles sao comboios locais… Tenho de perguntar a alguem e 2 pessoas depois lá aparece um rapaz com ingles capaz de me explicar o trajecto certo. Mais 10 minutos a andar até chegar e depois… descobrir a plataforma certa. A fome está a conseguir desatinar-me. Até à altura o único frio que experimentei foi na manga de desembarque mas a esta altura já grito por sentir o tal clima fresco e seco, o peso parece-me cada vez mais. Faltam 10 minutos para o comboio e eu continuo numa espécie de corrida.

A cada segundo, mais perto…

Perdido outra vez. Tudo é enorme. Chego ao terminal e nao sao 5 ou 6 comboios mas sim uns 30. Terminal certo, plataforma errada, placares informativos com a mesma disconexao de tudo o resto e só faltam uns minutos. Adoro andar perdido mas em pressing de horas é detestavel. Lá perguntei a um ascensorista que fazia ligação com plataformas no nível do subsolo e responde algo que me soou a um “Whaaa? Dán!…”. Só quando repetiu e apontou para baixo é que deu para perceber que era um “Down”. Salto para o elevador e aqueles segundos a descer com a certeza que estou no sítio certo redobram-me as forças. Já falta pouco. Desde as 5 da manha que não sei o que é repouso. O tempo de avião não conta para esse efeito. “Já tive mais longe…”. Quando fazemos por isso, a cada segundo estamos mais perto.

Antecipacao de triunfos

Queria mesmo chegar à empresa antes das 16h ou arriscava-me a não encontrar as pessoas responsáveis pelo alojamento e pela minha integração na empresa. Queria chegar antes dessa hora e fazer tudo o que me destinara fazer. Tinha a minha agenda para dia 9 e seria tipo “derrota pessoal” não cumprir integralmente com a minha “Checklist”. O comboio chega finalmente à plataforma e não consigo deixar de me sentir feliz e triunfante ao ve-lo aproximar-se. Penso “Sempre da maneira mais dificil… fosse facil e perdia a beleza inerente”. Antes assim… Perder o comboio seria doloroso depois de tudo, pelo menos a fome e o cansaco já atenuaram, acho que o meu cerebro chegou à conclusao que nao valia a pena continuar a irritar-me com impulsos nervosos desta natureza e desligou o interruptor. Vou chegar antes das 16h… Nao há tempo para fome ou cansaco. Ainda tenho de mudar de comboio em Frankfurt mainstation e depois apenas uma hora de comboio me separam de Fulda… São 14h10 e antecipo um triunfo.

Chegada a Fulda

Correu tudo como delineado. No comboio a caminho de Fulda, carregado, exausto e esfomeado ainda deu para telefonar para 2 pessoas que adoro a dar conta da minha sobrevivencia. Entrada na empresa – 15h40. De acordo com o planeado. Tratei dos assuntos que tinha a tratar, fiz os contactos com 5 pessoas de diferentes departamentos para preparar a minha entrada e estadia na empresa. Tudo sobre rodas. 16h30 e estava despachado. Ao fim do dia apresentei-me aos colegas com quem vou dividir a casa nos próximos meses. Trabalham todos na EDAG. Claro que acabamos o dia a beber cerveja, como é proprio de qualquer recepcao. Ao todo somos 6 lá em casa. 3 alemaes, 1 australiano, um malaio e eu. A casa é grande e comporta razoavelmente bem este grupo. Só o frigorifico é que é minisculo para tanta gente. Soube ainda que dentro de umas semanas comecam a chegar algumas namoradas. Aí é que a coisa vai complicar ligeiramente pois seremos 8. Mas arranja-se sempre maneira. Descobri a melhor cerveja de sempre – Weizen Hefe. Um prazer dos deuses beber aquilo. Tem um método de producao que aproveita o deposito dos barris apos a fermentacao. Vou ter de investigar mais este processo. Vejo-me a ter grandes momentos à conta desta pequena. É pena nao ter trazido os meus charutos monte-cristo. Fica para a próxima deslocacao a portugal. Nao podia trazer tudo de uma vez ou perdia a graca. Sempre da maneira mais dificil que é para continuar a ser forjado pela dificuldade… até nos pormenores…

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